JORNAL DA INCONTINÊNCIA
URINÁRIA FEMININA


Resumos Comentados
 
 

Ensaio duplo-cego randomizado de estimulação eletromagnética
do assoalho pélvico contra terapia simulada no tratamento
de mulheres com incontinência urinária de esforço
BJU Int. 2009 Jan 14.

Peter J. Gilling, Liam C. Wilson, Andre M. Westenberg, William J. McAllister*,
Katie M. Kennett, Christopher M. Frampton**, Deborah F. Bell, Patricia M. Wrigley
and Mark R. Fraundorfer
Departmentos de Urologia e Fisioterapia, Tauranga Hospital, Tauranga, and *Broomfield Hospital, Chelmsford,
England, and **Department of Biostatistics, Christchurch School of Medicine, Christchurch, New Zealand

 

Objetivo: Comparar a eficácia da estimulação eletromagnética (ES) do assoalho pélvico no tratamento da incontinência urinária de esforço (IUE) contra a ES simulada.

Pacientes e Métodos: No total, 70 mulheres com IUE confirmada em avaliação urodinâmica foram randomizadas para receber ES ativa (35) ou simulada (35). A cadeira NeoControl (NeoTonus, Marietta, GA, USA) foi usada, e o tratamento consistiu de três sessões por semana durante 6 semanas. Os dados foram coletados antes e após o tratamento de todas as mulheres, incluindo um pad-test procativo de 20 minutos com volume vesical pré-determinado (medida primária do resultado), um diário vesical de três dias e um pad-test de 24 horas. Medida da avaliação do músculo circumvaginal (MCV), perineometria utilizando dois instrumentos separados e videourodinâmica, também foram utilizados e a Escala de Qualidade de Vida da Incontinência Urinária (I-QOL) e o King’s Health Questionnaires. As pacientes foram reavaliadas 8 semanas após o tratamento e o diário vesical, pad-test e os questionários foram repetidos após 6 meses. O uroterapista e o médico não tinham ciência de qual tratamento o paciente havia se submetido.

Resultados: No grupo total de 70 pacientes houve melhora significante em todas as medidas dos resultados primários e secundários após 8 semanas. Houve também melhoras significantes nas medidas primárias e secundárias no grupo de tratamento ativo quando comparados com as medidas basais. Com 8 semanas houve melhoras nos valores da média (dp) para o pad-test de 20 minutos, de 39,5 (5,1) vs 19,4 (4,6) (P < 0,001); no pad-test de 24 h, de 24,0 (4,7) vs 10,1 (3,1) g (P < 0,01); o número de pads/dia, de 0,9 (0,1) vs 0,6 (0,1) (P < 0,01), a medida do I-QOL, de 63,7 (2,8) vs 71,2 (3,3) (P < 0,001); e o resultado do King's Health Questionnaire, de 9,6 (0,8) vs 6,9 (0,7) (P < 0,001). Contudo, estas melhoras não foram estatisticamente significantes quando comparadas com o tratamento simulado. Naquelas pacientes submetidas a tratamento ativo que apresentavam contração fraca do assoalho pélvico à avaliação inicial (definida pelas medidas do MCV e perineometria), houve uma redução significante (P<0,005) na perda observada no pad-test de 20 minutos quando comparado ao grupo submetido a tratamento simulado.

Conclusões: ES não foi mais efetivo, no geral, do que o tratamento simulado neste grupo de pacientes. Contudo, nas mulheres que eram incapazes de gerar contrações adequadas dos músculos do assoalho pélvico houve melhora objetiva no pad-test provocativo quando comparado ao tratamento simulado.

Palavras-chave: Incontinência de esforço, tratamento conservador, estimulação eletromagnética.

 

Comentário Editorial

 

O tratamento conservador da incontinência urinária de esforço tem sido considerado a primeira opção terapêutica, particularmente nos casos de IU leve e moderada. A principal modalidade é a intervenção fisioterapêutica com o fortalecimento e treinamento da musculatura do assoalho pélvico (MAP). Os exercícios melhoram o processo de fechamento uretral e o suporte dos órgãos pélvicos e a contração da MAP no tempo certo e com a magnitude adequada impedem a perda urinária comprimindo a uretra contra o púbis. A abordagem terapêutica, portanto, procura fortalecer os grupamentos musculares e ensinar a usá-los estrategicamente em situações de esforço ou urgência. Contudo ainda não foi identificado e padronizado o melhor protocolo de tratamento ou a identificação de fatores preditivos confiáveis para resultados positivos com a terapia. No global, a utilização de eletroestimulação para melhorar os resultados, isoladamente ou em associação com exercícios tem resultados objetivos e subjetivos conflitantes, porém em trabalhos bem conduzidos, não foram identificados benefícios ou estes são de pequena monta. A utilização da cadeira de eletroestimulação magnética tem por vantagem a ausência de eletrodos ou da introdução de probes vaginais ou anais para a realização do tratamento. No trabalho de Guilling et al, além da eletroestimulação magnética, as pacientes de ambos os grupos foram orientadas a fazer exercícios perineais, embora com “baixa carga” e, no global, ambos os grupos melhoraram em relação às medidas basais. Contudo, quando os grupos com tratamento simulado e ativo foram comparados não houve diferença estatística em relação aos parâmetros estudados. Em relação a um das medidas estudadas (pad-test de 20 minutos), as pacientes com força muscular baixa à avaliação inicial tiveram perda urinária menor em relação às com força similar do grupo tratamento simulado. Caso estes resultados sejam confirmados, a cadeira de eletroestimulação eletromagnética pode ser alternativa à utilização do biofeedback para melhora dos resultados para este subgrupo de pacientes.

 

Aparecido Donizeti Agostinho