Os efeitos do déficit hormonal assumem grande relevância por envolverem vários elementos relacionados com a continência urinária, tais como a mucosa uretral, os receptores alfa-adrenérgicos da uretra, o colágeno do assoalho pélvico e a vascularização peri-uretral(10, 11, 12, 13).
O tecido colágeno participa da formação dos ligamentos e dos tecidos de sustentação e de suspensão dos órgãos pélvicos e tem estreita relação com os níveis estrogênicos. Assim, a depender do órgão analisado poder-se-ão observar alterações diferentes. Na uretra e na bexiga, a reposição estrogênica em ratas castradas aumentou a quantidade de fibras musculares e diminuiu o colágeno total(14, 15, 16).
Outro importante efeito estrogênico é a modulação dos receptores adrenérgicos, ou seja, aumentam o número e a sensibilidade destes receptores, elevando o tônus da musculatura esfincteriana peri-uretral(12, 17, 18).
A mucosa uretral participa do mecanismo de continência, produzindo um efeito selante, através da sua coaptação. Sabe-se, contudo, que as mucosas vesical e uretral, à semelhança da vaginal, sofrem influência extrínseca. Descrevem-se diminuição da espessura e mudança do tipo de epitélio com o hipoestrogenismo. Tais fatos tendem a diminuir o seu efeito selante(19, 20).
A rede vascular peri-uretral, importante elemento na manutenção da continência urinária, responde por um terço da pressão uretral. Ademais, o estrogênio promove acentuado aumento do aporte sangüíneo, sobretudo nas regiões proximal e média da uretra. Avaliamos essa repercussão inicialmente em modelo experimental, quantificando o número de vasos peri-uretrais em ratas castradas antes e durante a reposição hormonal e, posteriormente, através da dopplervelocimetria dos vasos peri-uretrais. Notamos haver marcante diminuição no fluxo sangüíneo e no número de vasos, assim como aumento da resistência vascular nas mulheres na pós-menopausa, que se revertiam com a reposição estrogênica(21, 22, 23).
Descreve-se redução da massa muscular e perda da resistência dos ligamentos, justificando o aparecimento de prolapso genital e também contribuindo para a gênese da incontinência urinária por aumentar a mobilidade do colo vesical.
As queixas urinárias manifestam-se, em geral, após os demais sintomas do climatério. Assinalam-se, entre as mais freqüentes, a incontinência urinária de esforço, a urgência miccional, a polaciúria, a noctúria, a enurese noturna, o esvaziamento vesical incompleto e os episódios de infecção do trato urinário.
As alterações da sensibilidade vesical não devem ser negligenciadas pois, quer pela atrofia ou pelo próprio envelhecimento ocasionam considerável desconforto às pacientes. Não raramente nos deparamos com pacientes com queixas importantes de disúria, polaciúria, urgência miccional e até incontinência de urgência, com grande limitação e enorme sofrimento. Estes sintomas podem decorrer do hipoestrogenismo, sendo facilmente tratados pela adequada reposição hormonal.
O detrusor pode sofrer trabeculação com formação de pseudodivertículos e a uretra pode desenvolver fibrose distal com eversão da mucosa, as carúnculas.
Nos exames subsidiários sobressaem o exame urodinâmico e a ultra-sonografia do colo vesical. Deve-se mencionar, também, a importância da citologia oncológica de urina, quando existir queixa de aumento de freqüência e urgência miccional na população com faixa etária elevada.